Pesquisar este blog

terça-feira, 22 de julho de 2014


     Diversidade marca nova leva de heróis

Editoras modificam personagens para atrair público, e movimentos sociais comemoram.


Se alguém fosse congelado em 1991 e acordasse 23 anos depois, tal como aconteceu com o Capitão América, demoraria a compreender as mudanças por que o mundo passou. A começar pelo próprio herói, que deixou de ser vivido pelo caucasiano Steve Rogers e passou armadura e escudo para o negro Sam Wilson, seu antigo assistente, como a Marvel anunciou esta semana.

A diversidade nos quadrinhos não ficou restrita ao herói que veste as cores da bandeira americana. Thor, o deus do trovão, passará a ser vivido por uma mulher. E Archie Andrews, clássico personagem dos quadrinhos americanos, morrerá ao defender um amigo gay. A mudança nas páginas das revistas pode ser passageira, mas é vista com entusiasmo por representantes de movimentos sociais.

Diretor do Movimento Negro Unificado na Bahia, Ivonei Pires gosta da mudança.

— O negro é invisível em algumas sociedades. Se fizermos um levantamento, veremos que a maioria dos personagens negros aparecem de forma pejorativa. Essa mudança faz aumentar a autoestima — afirma Ivonei, que acredita que estas ações ajudam a naturalizar as relações sociais.

— Vai chegar um tempo em que a questão das raças será natural, não discutiremos a cor de um herói. Fico feliz porque tenho 41 anos e lembro que adorava ver as histórias do Capitão América. Agora, vou gostar ainda mais — diz.

Carlos Tufvesson, coordenador especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio, afirma que o ambiente em que vivem os heróis é propício para que se lute por direitos.

— Nada mais coerente que a busca pelos direitos e pela justiça comece pela Sala da Justiça! Isso mostra que não há restrições de cor, gênero ou opção sexual para ser um herói. Existe uma prerrogativa de que para ser viril é necessário ser heterossexual. Não é verdade e, talvez, estes quadrinhos estejam começando a mostrar isso.

UNIVERSOS PARALELOS:

O episódio da morte de Archie não é o único que aborda o tema da homossexualidade. No ano passado, a orientação sexual do primeiro Lanterna Verde, personagem da editora DC Comics, foi reformulada. Na época, o episódio gerou controvérsia por se tratar de uma modificação no perfil de um personagem em um universo paralelo: ativistas afirmaram que seria melhor para o movimento se algum personagem assumisse a homossexualidade no universo regular.

Outra capa ligada à causa LGBT foi feita pela Marvel com o herói Estrela Polar, que aparece casando com o namorado. A edição foi feita logo após o governo do estado de Nova York autorizar o casamento de pessoas do mesmo sexo, em julho de 2011.
As reviravoltas nos quadrinhos, porém, podem ter vida curta. Segundo o historiador Ronaldo Assis, especialista no gênero, as editoras adotam uma política para atrair o público de tempos em tempos, mas que só dura durante o período de certa narrativa.

— As editoras entenderam que o mundo mudou e que é necessário atrair novo público. A primeira tentativa foi inserir personagens secundários de diferentes etnias, opções sexuais e nacionalidades, mas não teve tanto apelo — conta ele, que observa as mudanças com cautela. — Agora eles estão investindo em transformar suas principais estrelas, mas são escolhas empresariais. Já existiu época em que mataram quase todos os heróis e eles, depois, reviveram. Não acredito que todas as mudanças permaneçam — diz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário